Especial para o UOL – Thiago Pereira se preocupa com pressão em 2016

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Camisa 9 da seleção brasileira, Fred chegou à Copa do Mundo já veterano de mundiais, escolado pelo futebol europeu e acostumado a lidar com a exigente torcida do futebol no país. Mesmo assim, até ele sofreu com a pressão de vestir a camisa verde-amarela em um evento tão importante.

O caso do centroavante de Luiz Felipe Scolari serve de alerta para um dos maiores atletas do esporte olímpico brasileiro. Para Thiago Pereira, medalhista de prata em Londres-2012 e recordista em ouros nos Jogos Pan-americanos, se Fred sentiu a pressão, imagina os atletas que estão a menos de dois anos de defender o Brasil nas Olimpíadas de 2016?

“Em 2007, eu entrei na Vila do Pan-Americano do Rio de Janeiro uma pessoa e sai outra, completamente diferente. [A repercussão] Assustou, mesmo. Tive de me acostumar com a bomba. E isso pode afetar carreiras muito promissoras. Eu já consegui o meu sonho. Minha medalha olímpica, de Londres, vai ser sempre minha. Mas quem ainda está em busca de algo assim, precisa de apoio. Eu tenho acompanhamento psicológico hoje”, diz o nadador.

Em conversa com o UOL Esporte, Thiago falou de sua mudança para treinar nos EUA, o sonho de se tornar o maior medalhista da história dos Jogos Pan-Americanos e de seus medos para o esporte olímpico brasileiro nos Jogos do Rio, em 2016. Confira:

Você anunciou, recentemente, que vai treinar nos EUA. O que motivou essa mudança?

Eu estava treinando desde 2011 com o Albertinho (Alberto Silva, que foi para os últimos Jogos Olímpicos como técnico da seleção brasileira). Mas, agora, ele está assumindo um cargo na Confederação, para cuidar da natação masculina. Então, resolvi buscar uma mudança. Acabei optando por voltar para os EUA, para treinar na USC (Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles) com o Dave Salo e o Jon Urbancheck (dois dos principais técnicos dos EUA). Essa mudança não foi só por novos ares. Foi uma busca por um foco maior. Morando no Brasil, sempre aparecem eventos, entrevistas ou reuniões, compromissos que você tem de atender. E, querendo ou não, meia hora aqui, meia hora, somando tudo, acaba prejudicando a preparação. Eu tomei a decisão de fazer a melhor preparação possível para o Rio-2016. E indo para os EUA, acho que vou conseguir isso.

Isso significa que você vai morar nos EUA até as Olimpíadas?

Na verdade, não. Eu devo dividir o meu tempo 65% de treinamentos nos EUA e 35% treinando no Brasil. Aqui, minha base vai ser o Sesi. Foi uma decisão que não teve nada a ver com a parte financeira. Acho, até, que se ficasse no Brasil, mais perto de todo mundo, dos patrocinadores e mais disponível para eventos, apareceria mais e poderia ganhar mais. Mas estou optando por uma tranquilidade maior, por um foco maior. E por uma maior competitividade nos treinos.

Algo que é mais complicado de achar por aqui, certo?

A estrutura de alguns clubes no Brasil é muito boa. Os clubes grandes dão as mesmas possibilidades de treinamento que os centros americanos. A diferença fica em quem está lá treinando, nas possibilidades de competir sempre. Na USC, eu vou estar ao lado do Ossama Melloulli, que é campeão olímpico, do Conor Dwyer, que é um dos grandes novos nomes dos EUA, da Ariana Kukors, que já foi campeã mundial. É muita gente boa e que não gosta de perder. Então, nos treinos, você tem que estar sempre se dedicando ao máximo para bater na frente. E ninguém gosta de bater atrás. Os treinos são melhores assim, porque você acaba esquecendo o cansaço e as dores para bater na frente. E tem também os campeonatos. A partir de agora, quero competir todos os meses, de prederência contra o Ryan (Lochte) e, quando ele voltar, com o Michael Phelps. Essa é minha aposta para fazer a diferença para o Rio-2016.

Você já tentou isso entre 2009 e 2011 e os resultados, pelo menos no Mundial de 2011, não foram bons. Porque fazer uma nova tentativa?

Eu mudei muita coisa depois daquilo. O resultado realmente não foi bom, eu voltei para o Brasil e comecei a treinar no projeto do Albertinho (o PRO-16, criado por Cesar Cielo). Passei a ter acompanhamento multidisciplinar, tinha médico, fisioterapeuta, nutricionista. Desde então, não é mais só questão de treinos na água. Isso é quase um feijão com arroz, não existe muita coisa para inventar. A diferença é essa parte fora da água. E isso eu mantenho até hoje e vou continuar tendo nos EUA. Já montei um plano de comunicação, com e-mails, skype e mensagens, para conversar com os profissionais que me acompanham. Meu médico, por exemplo, vai me visitar nos EUA em alguns momentos. Terei um fisioterapeuta na Califórnia e um no Brasil. Tudo o que deu certo nos últimos anos, vai ser mantido.

Para falar de prioridades, no ano que vem o Mundial e os Jogos Pan-Americanos são próximos. Você tem uma preferência?

Eu quero ir bem nos dois. No Pan, existe um objetivo especial: eu quero me tornar o maior medalhista da história dos Jogos. Eu estou a quatro medalhas de um ginasta cubano (Eric Lopez ganhou 22 medalhas em Pans, contra 18 de Thiago) e quero quebrar esse recorde. E tem também o recorde do Gustavo (Borges, que, com 19 medalhas, é o recordista brasileiro). Então, o Pan está entre as prioridades. Mas o Mundial do ano que vem é o último antes da Olimpíada e também é muit forte. Tradicionalmente, é o Mundial mais forte do ciclo olímpico. E eu também vou bater de frente por lá. Por isso que a preparação precisa ser muito bem pensada, porque é um ano muito importante. Eu estou pensando mês a mês, vendo quando vou treinar, quando vou competir, quando vou viajar, para que não dê nada errado.

Você vai chegar aos 30 anos no Rio-2016. Será sua aposentadoria?

Eu estou pensando passo a passo. É relativo. O foco é no Rio, depois traço os próximos objetivos. Vai depender de como vou estar fisicamente e dos resultados competitivos. Mas, olhando para isso, os meus melhores resultados estão aparecendo agora. Eu estou igual ao vinho. Mais velho e melhorando.

Mas existe uma nova geração pronta para assumir o seu lugar?

Tem, claro. Mas, no lugar de olhar para nomes, eu acho que temos de olhar para essa Olimpíada como um divisor de águas. Quando eu assistia as Olimpíadas pela TV, quando era criança, achava que era um mundo muito distante. Com os Jogos no Rio, os brasileiros vão ver que é possível virar atleta olímpico e conquistar uma medalha. Não vai ser só estrutura. Acho que temos chance de ver uma mudança de mentalidade na população, acho que vamos conseguir mostrar que o Brasil pode ser mais do que só futebol. Mas, para isso, é preciso que haja um esforço.

Esforço de quem?

De todo mundo. Primeiro, acho que vamos ter oportunidade de mostrar quem são os heróis olímpicos brasileiros. Estamos a dois anos dos Jogos, e o brasileiro comum não sabe para quem vai torcer na maioria dos esportes. Na natação, conhecem um outro. O Rio-2016 é uma chance para mudar isso. E também é importante lembrar que precisamos dar apoio para os atletas mais jovens. O tamanho da pressão a que todo atleta vai estar sujeito vai ser muito grande. Olha o que aconteceu na Copa do Mundo. Usando o Fred como exemplo: ele foi perseguido por todo mundo. E é um cara experiente, que passou pela Europa, passa o ano todo lidando com torcida de futebol. Com a Olimpíada, essa mesma pressão vai bater em cima de garotos que não estão acostumados com isso. E esses talentos podem ser perdidos. Por isso, devemos pensar em dar assistência psicológica para esses atletas desde já. O sonho de disputar uma Olimpíada em casa é único, mas o sonho olímpico não morre em 2016. Ele continua em 2020, 2024, 2028…

Você sentiu isso em 2007, no Pan do Rio?

Eu entrei na Vila do Pan uma pessoa e sai outra. Completamente diferente. Enquanto estava competindo, você não sentia nada. Mas quando sai, a pressão me envolveu. Assustou, mesmo. Tive de me acostumar com a bomba. E isso pode afetar carreiras muito promissoras. Eu já consegui o meu sonho. Minha medalha olímpica, de Londres, vai ser sempre minha. Mas quem ainda está em busca de algo assim, precisa de apoio. Eu tenho acompanhamento psicológico hoje. E acho importante pensar nisso.