Edênia Garcia escreve à espnW

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Edênia Garcia escreve à espnW
Edênia Garcia escreve à espnW

A paratleta Edênia Garcia entrevistou Cheryl Angelelli na sua coluna da espnW

Papo de nadadora: Entrevista com Cheryl Angelelli

Oi, meninas,

Hoje o papo de nadadora mergulha na raia ao lado, com minha grande adversaria e hoje amiga, Cherryl Angelelli.

Cheryl começou a competir aos oito anos, mas sua carreira foi interrompida quando em 1983 aos 14 anos, fez um mergulho durante um treino com sua equipe de natação do YMCA e lesionou a medula espinal, ocasionando uma tetraplegia, comprometimento dos quatro membros. Somente depois de 15 anos, ela retornou as piscinas e começou a pleitear uma vaga na seleção Americana de natação paralimpica. Cheryl debutou em Jogos Paralimpicos dois anos após retornar as disputas, foi em Sydney 2000, que ela conquistou duas medalhas de bronze, uma linda estreia.

Dois anos mais tarde,  em 2002 na Argentina, fez sua primeira participação em mundiais paralimpicos de natação, ganhou duas medalhas de bronze nos revezamentos 4x50m livre e 4x 50m medley. Foi neste campeonato que dividimos pela primeira vez a piscina na disputa por equipes, no revezamento 4x50m medley, a equipe Americana ganhou com larga vantagem em relação ao Brasil, fechando o revezamento para 3:39.97 e o Brasil para 4:08.84, lembro que foi uma medalha muito comemorada pela equipe brasileira.

Nossas maiores disputas sempre foram em grandes campeonatos, lembro bem quando fizemos o mesmo tempo nas eliminatórias dos 50m livre em Atenas 2004, ambas nadaram para 53.37 e nos classificamos para a final e nadamos lado a lado mais uma vez. Acredito que de todas nossas disputas, nenhuma foi mais acirrada do que o mundial na Holanda em 2010, ela competindo na principal prova, 50m livre, eu competindo uma prova que não era a minha, a maioria das nadadoras nadam crawl, eu fui com a cara e a coragem e nadei costas, meu estilo mais rápido, sempre uma diferença muito pequena entre nós duas, nessa ocasião foi de 2 centésimos. Foi eletrizante!

Hoje Cheryl é aposentada das competições de natação paraolímpica, sua ultima Paralimpiadas foi em Pequim 2008, onde ganhou duas pratas, nos 50m livre e 100m livre, nos 50m ela levou a melhor, fiquei com a prata.

Com certeza o esporte nos ensina muitos valores e um deles é aprender a ganhar e a perder, como acontecia entre Cheryl e eu, sempre uma competição saudável.

Vejam logo abaixo um trecho do meu bate- papo com Cheryl depois de alguns anos competindo lado alado.

P 1- Como você começou no esporte paraolímpico e quem o incentivou a praticar esportes?
Comecei a nadar competitivamente quando tinha 8 anos de idade. Eu sempre amei nadar e era um esporte em que eu era boa. Quando eu tinha 14 anos, eu estava treinando para uma competição e meu treinador decidiu tentar um novo mergulho de corrida na parte rasa da piscina. Eu tive que pular uma corda na frente do bloco de partida e acabei batendo minha cabeça no fundo da piscina e quebrei meu pescoço. Em um instante minha vida mudou. Eu não nadei durante 15 anos depois do meu acidente … e depois, enquanto trabalhava como jornalista, fui a Atlanta, Geórgia (EUA) para relatar os Jogos Paralímpicos de 1996. Assim que vi esta competição de classe mundial para atletas com deficiência, eu sabia que queria competir novamente. Então comecei a treinar e estabeleci uma meta para fazer parte da equipe de natação paraolímpica de 2000.

P 2- Você já experimentou alguma dificuldade no esporte por ser mulher?

Não, eu nunca experimentei qualquer discriminação ou dificuldades por ser uma mulher nos esportes.

P 3- Você competiu nos Jogos Paralímpicos, qual edição foi mais especial e por quê?

Eu competi em 2000, 2004 e 2008. É difícil escolher um favorito porque cada uma têm memórias especiais. O ano de 2000 foi especial porque foram meus primeiros Jogos e eu estava experimentando tudo pela primeira vez, além de conhecer o homem que se tornaria meu marido nos Jogos de 2000. Atenas 2004 é especial porque foi a primeira vez que ganhei medalhas (2 de bronze). Pequim em 2008 eu ganhei 2 de prata e esses jogos são memoráveis porque eles foram meus últimos.

P 4- Nós competimos juntas às vezes, você tem alguma lembrança de uma prova específica?

Nós tivemos muitas provas uns contra os outros ao longo dos anos. Nossos tempos eram sempre muito próximos … às vezes eu vencia e às vezes você vencia. Eu sabia que toda vez que eu tinha que disputar contra você tinha que estar no meu melhor porque você era uma concorrente difícil. Uma das minhas lembranças foi quando eu estava nadando em uma das minhas últimas competições e depois da prova eu estava chorando porque sabia que seria uma das últimas vezes que competi. Eu lhe disse que estaria me aposentando e você veio e me abraçou. Eu nunca esqueci sua gentileza naquele momento.

P 5- Quando você tomou a decisão de se aposentar da natação? Foi uma decisão difícil?

Em 2013 tomei a decisão de me aposentar após 16 anos de competindo na paranatação. Foi uma decisão muito difícil porque a paranatação foi uma parte muito importante da minha vida. Uma das razões pelas quais decidi me aposentar foi que eu estava ficando mais velha e também eles estavam cortando muitas provas na classificação S4, incluindo algumas das minhas melhores, como os 200 livre. Então eu tinha menos oportunidades de participar.

P 6- Como tem praticado o Para Dance Sport?

Eu comecei a Para Dança em 2014 e eu absolutamente adorei! É ótimo estar competindo novamente em um esporte diferente. É muito diferente de nadar. A maior diferença é que a natação é um esporte individual e na Para Dança eu tenho um parceiro e temos que trabalhar juntos. Mas eu estou amando isso. Na nossa primeira competição sancionada paralímpica, ganhamos uma medalha de prata no estilo livre… o que é engraçado porque o livre sempre foi a prova que eu competi na paranatação.

P 7- Você tem uma longa jornada de treinos e competições, como você ficou motivado por quase vinte anos e o que você mais gostou no esporte?

Eu competi por 16 anos na Paranatação. Eu gostava de viajar, conhecer atletas de todo o mundo e fazer parte da equipe dos EUA. O que me manteve motivada foi querer ser a melhor. Querendo ir mais rápido. Eu adorava estabelecer um objetivo para mim mesma e trabalhar duro para alcançá-lo.

P 8- Você poderia nos deixar uma mensagem para quem está começando no esporte?

Para os novos atletas, queria dizer para aproveitar cada momento, trabalhar duro, ser um bom companheiro de equipe, praticar um bom espírito esportivo e fazer muitas lembranças.

Abs.